Oito minutos namoro

Roberta Miranda termina namoro de oito anos. ... Acho importante a mulher tirar uns 30 minutos de seu dia para ela. Tem de dar um tempo, mandar o maridão e os filhos fazerem alguma coisa, e ... Amor hoje completamos 8 meses de namoro, 244 dias ao seu lado sendo a pessoa mais feliz e realizada deste mundo! ... Pode ser logo ali, naquela cidade que fica a quarenta e cinco minutos de avião. Pode ser lá longe, em outro país. Pode ser em outro estado. Pode ser do outro lado do oceano. Não importa: a saudade arde. Mas serve para nos ... Carlos Eduardo e Maria, sua namorada, estão completando oito anos de namoro e ele vai aproveitar a ocasião para pedi-la em casamento, por meio de uma música, em um restaurante romântico escolhido a dedo para a ocasião. Marque a opção que apresente ERRO ao identificar o elemento da comunicação que compõe o evento. Ei, meu anjo. Hoje completam exatos oito meses de namoro, haha. Espero que você esteja feliz, pois apesar de tudo, eu estou. Esse é o primeiro texto de comemoração que eu escrevo que tu não poderá ler, isso me deixa um pouco mal. Oito minutos até o fim. Por que não consigo dormir? Talvez o medo de que o mundo acabe em apenas alguns minutos. Tomar aquele punhado de pílulas para dormir, e hibernar vinte horas antes de o mundo perecer em chamas foi uma boa idéia, mas eu deveria ter pensado na quantidade de calor que o sol pode disparar, com seu corpo grande. E já se passaram oito meses de namoro e muito amor. Veja a linda frase curta e imagem, que preparamos para você enviar para o celular da pessoa que ama, ou se preferir postar no facebook e se declarar puiblicamente. Clique e copie a frase curta. Para mim nosso namoro é perfeito; perfeito do nosso jeito, perfeitamente imperfeito como nós. É a expressão do nosso amor, do carinho e da amizade que sentimos um pelo outro. Para mim nosso namoro é perfeito sim, pois sou muito feliz ao seu lado, e amo você para sempre! 'A violência no namoro é um ato de violência, pontual ou contínua, cometida por um dos parceiros (ou por ambos), numa relação de namoro, com o objetivo de controlar, dominar e ter mais poder ... Filho de Will Smith reage a rumores de namoro com Sofia Richie Fama Big Brother Há 5 Horas. A recuperar da operação, Sandrina lamenta: 'Ninguém tem compreensão' ... Foram oito minutos de puro ... Apesar de estarmos fazendo apenas 10 meses de namoro, já estamos há 1 ano e pouco juntas, mas sinto como se estivéssemos há vidas… E, quem sabe, não seja isso. A gente sempre se pertenceu, mesmo antes de nos conhecermos. E sempre nos pertenceremos. Nosso amor sobrevive a qualquer coisa.

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2020.02.10 15:30 KNWRV Escrevi esse conto e gostaria de um feedback

O funeral
Na estante de madeira, uma coleção de livros; uma televisão sobre a bancada, lâmpada fosca de tungstênio, ele se encontrava deitado sobre o teclado do computador, semi-desperto, na tela do computador se lia: “A vida e a morte de zdweddddddd...”. José Augusto era escritor, vivia de pequenos contos, algumas traduções aqui e outras ali. Dava pra pagar o pequeno apartamento em que vivia. Não tinha mais companhia, terminara com a namorada, o cachorro Tufão morreu há um mês. Vivia, ainda que mal vivia.
Prim,Prim...Ah! Acordou de sobressalto, era aquele maldito telefone, pra quê pagava aquela linha? Ninguém mais ligava ali, bom mas alguém ligava... Foi caminhando zonzo, no andar dos bêbados. Alô! É da casaa do senhor José Augustoo? – falava como se puxasse a última vogal de algumas palavras ou era a ligação- É sim. Quem fala? É Helena, mulher do Leonardo. Do Leonardo? Como ele tá? Já faz muito tempo que eu falei com ele! É assim...humf,humf... ele saiu dessa para uma melhor- disse entre choramingos. Meu deus. O funeral vai ser hoje à tarde, uma da tarde, seria bom se você aparecesse no funeral, ele pediu que eu te entregasse algo. Eu vou sim, claro que vou- falava estupefato- Tá certo... Tá certo. Funerária Jerusalém. Tá certo.
Morto, defunto, funeral... hoje? Uma hora? Mas como? Quando? Ele tava doente? Por que ele não falou nada? Faz o quê? Cinco anos? Seis? Sentou-se consternado, novamente, em frente do computador. Eram oito horas e trinta minutos, depois dessa mórbida conversa sentiu seu lábio rachado como as terras áridas do deserto, levantou-se da cadeira, a visão ficou turva e sentiu uma certa vertigem. Escuridão, tudo negro... morte? Morte? Não, ainda não. Andou meio bambo até a cozinha, retirou uma vasilha de água da geladeira. Bebeu direto dela, os copos estavam sujos. Funerária Jerusalém. Eu vou ter que pesquisar onde fica. Voltou ao quarto em duas passadas, sentou todo afobado, abriu o navegador, digitou no site de busca: Funerária Jerusalém. Descobriu que ficava na rua Azul do bairro que vivia, eram três quadras de distância, iria a pé, estava decidido.
Preto, é claro! Tem que ir de preto. Não poderia ir com a regata branca amarelada e esburacada na altura das axilas e nem mesmo o short florido que trajava no momento. Saiu do cômodo e voou pelo quarto para o armário. Cadê? Cadê? Aqui. Tirou uma amassada camisa do armário. Eu passo? É tenho que passar, mas primeiro a calça. Cadê? Cadê? Aqui! Pegou uma calça negra, mas com um buraco na parte esquerda da calça. Tem outra? Não, não tem. Droga! Jogou a calça e a camisa na cama. Meias? Precisa de meias pretas? Melhor né? Cadê? Cadê? Não tem, branco é tranquilo, é só a meia, pegou o único tênis que tinha; claramente preto. O tênis estava deplorável, a camisa amassada e a calça furada, mas era o que ele tinha.
Tem que passar a camisa... passo? Eu passo... não pra quê? Ninguém vai reparar, ninguém sabe que José Augusto é apenas um fracassado de quarenta anos, ninguém sabe, nem saberá. Que horas são? Olhou o relógio, já eram doze horas, mas já? Quanto tempo foi perdido nas roupas? Talvez uma fenda o tempo se abriu e me sugou para dentro e eu não percebi? Talvez o preto fosse uma espécie de cor sagrada em que o contato possibilitava romper as barreiras da realidade, os questionamentos fluíam da cabeça de José Augusto tomando forma na realidade, enfim concluía sempre seus pensamentos com um: “Hmm... devo escrever uma história sobre isso”. Já eram doze horas, isso lhe era inegável, ainda que tentasse justificar com ideias de ficção científica. É realmente não dá para passar. Voltou à cozinha; abriu a geladeira, tinha um pequeno prato com um pedaço de carne, pegou a margarina, caminhou até o fogão, ligou-o, chama alta, derramou quase toda a margarina na frigideira, fritou o bife, o boi morto ardia no metal, chiando, o som agudo causava certa irritação em seus ouvidos, levou o dedo ao ouvido, evitando o som que em poucos segundos cessou. Cortou um pedaço de pão velho perdido pela cozinha em uma cesta perto da geladeira, pôs a carne nele, comeu em duas mordidas. Tomo banho? Cheirou-se, não havia odor algum, não, só troco de roupa. Voltou ao quarto, trocou o folgado short que usava pela camisa amassada e a calça rasgada. Era hora de ir ao funeral.
Saiu do apartamento, trancou a porta, desceu as escadas, abriu o pequeno portão. Começou a andar no quarteirão, o sol estava queimando, os prédios mais distantes apareciam em formas distorcidas em meio ao calor como se fossem visões de uma realidade que nunca existira. Passou o primeiro cruzamento; faltavam três; uma velha corcunda vestida com um vestido florido e com cabelos brancos que pareciam brilhar em meio ao sol esperava no segundo cruzamento, ela quer atravessar? Ajudar uma velha, eu sou o quê, um escoteiro? Isso é tão ridículo. José confrontava a ideia de ajudar uma velha a atravessar a rua e não fazer nada, não importava sua escolha ambas aos seus olhos lhe pareciam ridículas, a primeira era algo quase que irreal, algo como um drama de uma história sem sal, típicas do seu trabalho de escritor menor; a segunda porque em nada mudaria o destino das estrelas no universo, uma pequena ação em uma rua tão pequena, nada poderia mudar o significado do mundo, porém alguma ação de José Augusto já havia mudado o universo? Ele pesava ambas com cuidado, agindo com uma balança perfeitamente regrada, ele sentia o que cada uma poderia causar: no fim concluiu que ajudar ou não ajudar não importava.
Quem sabe a primeira me compre um lugar no céu. Acreditava no céu? Isso não se sabe, nem ele sabia disse ao certo. José ia à igreja algumas vezes, sabia decorado alguns salmos, o pai-nosso, a ave-maria, credo e mais algumas, o tempo que passara na Eucaristia e em sua Crisma, lhe fora cansativo, porém internalizara bem os comandos de Dona Susana, mas não chegou a concluir se tinha uma fé verdadeira ou imposta, a verdade que nem ele sabia no que acreditava: às vezes se baseava puramente na ciência outras vezes falava de coisas imateriais e justificava com destino e outras coisas assim. Era um ser curioso, um escritor sem muito valor, mas bastante curioso.
Com as dúvidas na cabeça e o sol sobre a cabeça, ele se aproximou da velha corcunda. Senhora quer ajuda? Obrigado, meu filho.- disse abrindo um sorriso com os dentes amarelos, demarcados pela falta de alguns, entre os buracos parecia haver um fogo que ardia de dentro de seu ser. Ele a pegou em sua mão, a mão era fria, como se ele sentisse a mão do falecido que veria no funeral. Cuidadosamente, primeiro um pé e depois um outro, cuidado com os carros. Senhora, não precisa se apressar, vamos devagar. Isso, devagar. A velha somente ficava calada, mostrando seu sorriso furado e amarelo. Enfim atravessaram a rua, com certa lentidão típica daqueles que atravessam para o outro lado da rua. Largou a mão fria já na calçada, olhou os olhos da velha que mais pareciam tragar toda a luz e não emitir nenhuma, desafiando os princípios físicos e disse: A senhora tem que tomar cuidad... Tá falando com quem otário?! Disse um garoto com boné para trás que passava pela rua.
José Augusto desviou seu olhar para o jovem que passou e depois retornou para onde deveria estar a velha, mas ela já não estava mais lá. Olhou para os quatros cantos, a velha desaparecera em meio ao sol quente daquela quinta-feira. Como poeira naquele asfalto, a velha sumira diante do mundo, levada pelo vento quente. Como era de tentar justificar tudo José Augusto formava pensamentos desconexos para tentar compreender aquela história: foi o sol, ele pensava, o calor muda a visão e a realidade, apenas pode ser isso, assim como os prédios distorcidos, a velha não passava de uma distorção da realidade, existem algumas teorias físicas que apontam distorções do espaço-tempo, talvez a velha fosse uma extensão dessas distorções, pensava com a cabeça de um físico teórico. Continuou andando pelas cimentadas ruas, o sol queimava, mas ainda andava com passos firmes, formulando outras teorias sobre as distorções do continuum espaço-tempo. Absorto nessas ideias, ele não percebeu que apesar do sol incidir obliquamente sobre seu corpo, ele não tinha sombra, um fato muito mais curioso, haja visto que a velha caminhava logo atrás dele, sem nenhum som, ou seja seu desaparecimento não valia a pena ser investigado porque já reaparecera. Sob o sol forte, ele, enfim, chegou em frente à funerária, uma casa azul, com algumas flores amarelas na entrada e uma árvore murcha. José entrou fazendo o sinal da cruz.
“José”. Helena, há quanto tempo; Helena usava a típica roupa de viúva; negra, usava um véu sobre a cabeça branco que destoava, mas era o mais típica possível. Havia dois vasos com flores vermelhas na sala, no caixão do defunto, mais flores vermelhas e ao redor vários olhos vermelhos e inchados de choro. Perto do caixão estava a mesma velha corcunda do vestido florido, ela abriu o mesmo desdentado sorriso amarelo e José Augusto atônico, desviou o olhar das chamas que ardiam entres os furos de seu sorriso. O que foi José? Parece que viu um fantasma. Não é nada... não é nada, Helena. Ela tinha o nariz e os olhos verdes avermelhados, possivelmente do choro, pensava José. A idade não havia sido severa com Helena, ela ainda continuava bonita quando nos tempos da juventude. Ela um tanto apressada, com medo de não ter outra oportunidade, ela tirou do bolso uma pequena foto e disse: José, o Leonardo pediu para eu te entregar. Ela então entregou a foto amarelada: José e Leonardo jovens, em tempos de faculdade, sentados sobre o capô de um gol branco, José ria e Leonardo sorria olhando para baixo, o sol incidia sobre o vidro e aquele momento ficou capturado como uma alegre lembrança. Bons tempos, do que será que ele morreu? Eu pergunto? É rápido...ele olhou o nariz vermelho e subitamente sua coragem cedera, não, não pergunto, do que adianta saber, em que isso mudaria a situação?
Ele nunca me contou o porquê de vocês terem brigado, disse Helena com um certo tom de inocência na voz revelando seu inerente desejo de saber o porquê de tão bons amigos terem parado de se falar repentinamente, faz tanto tempo- disse lentamente José Augusto- eu nem lembro o motivo... eu devia ter pedido desculpas, ele olhava para os azulejos à portuguesa do chão. Ele também deveria, disse Helena abrindo um sorriso de complacência, sabendo da personalidade cabeça-dura de seu finado marido. Eles se despediram de uma forma silenciosa, Helena foi receber outros que chegavam, José sentou na cadeira de plástico bamba do canto esquerdo, com a foto na mão direita, que manuseava incessantemente entre os dedos, ele olhava fixamente para o caixão, assim como para a velha. Permaneceu sentando no canto por longos trinta minutos, alheio ao mundo; revivendo o garoto solitário que ficou amigo do garoto popular, dos jovens na faculdade, das alegres brincadeiras e queria lembrar o motivo da briga, mas não lembrava, fixava os olhos cansados sobre a foto, esquecera da velha por um momento, tentava lembrar com todas as suas forças o motivo da briga, mas não lembrava. Revisitando suas diáfanas memórias de amizade e juventude, dos namoros e diversões, de seu melhor amigo improvável, fez com que escorresse, por sua face que já enrugava, uma lágrima, somente uma, mas uma escorreu.
Levantou-se, foi-se embora lentamente, sem ninguém perceber, abriu a porta e saiu da funerária, também fazendo o sinal da cruz. A velha do sorriso amarelo o acompanhou; passou pela árvore murcha e as flores da entrada, sob o sol ainda fervente, voltou ao seu apartamento, alheio ao mundo, despercebendo as mudanças que os prédios sofriam, deixando a forma de prismas retos, para uma forma arredondada e curvada. A velha corcunda que o acompanhava, fazia o papel de sua sombra que inexplicavelmente sumira. José Augusto normalmente iria criar teorias científicas, filosóficas ou qualquer outro motivo para aqueles momentos, porém absorvido no passado que revivia em lembranças não pensava nisso, abriu a porta do seu apartamento que rangeu como um último grito de um moribundo, sentia em seu peito uma necessidade de escrever, sem trocar a roupa, comer ou beber água, encaminhou-se ao escritório, colocou a foto em cima da bancada, sentou em frente ao computador, a velha do sorriso amarelo ficara no canto do cômodo observando-o trabalhar, o seu sorriso era cada vez mais macabro, mas o escritor nada notava, apenas digitava, tudo que sentira naquela revisitação de suas memórias. José Augusto escrevera, até o anoitecer e além, o livro de sua vida: “Duas vozes”, a lua já estava alta e as estrelas cantavam, sentiu um grande sono e caiu sobre o teclado dormindo, com um sorriso escancarado, reconhecendo que escrevera uma obra digna de autores como Proust, Machado e Joyce, quem sabe estaria ele ao lado deles, após aquele livro.
A velha aproximou-se, deu-lhe um abraço e trouxe um pequeno cobertor do quarto para José, por uma última vez ela abriu o sorriso amarelo: É uma história bonita. Parabéns, José Augusto. Disse com sua voz fria e profunda que ecoava em uníssono com o silêncio do quarto frio.
“Duas vozes” virou um sucesso, falava-se dela nas ruas, na tevê, ganhara a aclamação de crítica e público, suas passagens eram recitadas por jovens e velhos e até sua abertura, que para os leitores era tão icônica, virou frase de para-choque de caminhão e tatuagens na pele de muitos que nunca viram o rosto de José Augusto, a frase era mais ou menos assim: “Cuide de suas lembranças, elas são o cemitério que você leva na cabeça”.
“Duas vozes” era claramente uma versão poética de sua amizade com Leonardo e todas as aventuras de infância, juventude e maturidade pelas quais passaram. Os críticos que a aclamaram depois, perceberam facilmente essa criação poética das lembranças e suas semelhanças com a realidade. Assim como destacam que foi escrita na quente quinta-feira do funeral de Leonardo e da morte de José Augusto.
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2020.01.16 01:33 KNWRV O Funeral

Na estante de madeira, uma coleção de livros; uma televisão sobre a bancada, lâmpada fosca de tungstênio, ele se encontrava deitado sobre o teclado do computador, semi-desperto, na tela do computador se lia: “A vida e a morte de zdweddddddd...”. José Augusto era escritor, vivia de pequenos contos, algumas traduções aqui e outras ali. Dava pra pagar o pequeno apartamento em que vivia. Não tinha mais companhia, terminara com a namorada, o cachorro Tufão morreu há um mês. Vivia, ainda que mal vivia.
Prim,Prim...Ah! Acordou de sobressalto, era aquele maldito telefone, pra quê pagava aquela linha? Ninguém mais ligava ali, bom mas alguém ligava... Foi caminhando zonzo, no andar dos bêbados. Alô! É da casaa do senhor José Augustoo? – falava como se puxasse a última vogal de algumas palavras ou era a ligação- É sim. Quem fala? É Helena, mulher do Leonardo. Do Leonardo? Como ele tá? Já faz muito tempo que eu falei com ele! É assim...humf,humf... ele saiu dessa para uma melhor- disse entre choramingos. Meu deus. O funeral vai ser hoje à tarde, uma da tarde, seria bom se você aparecesse no funeral, ele pediu que eu te entregasse algo. Eu vou sim, claro que vou- falava estupefato- Tá certo... Tá certo. Funerária Jerusalém. Tá certo.
Morto, defunto, funeral... hoje? Uma hora? Mas como? Quando? Ele tava doente? Por que ele não falou nada? Faz o quê? Cinco anos? Seis? Sentou-se consternado, novamente, em frente do computador. Eram oito horas e trinta minutos, depois dessa mórbida conversa sentiu seu lábio rachado como as terras áridas do deserto, levantou-se da cadeira, a visão ficou turva e sentiu uma certa vertigem. Escuridão, tudo negro... morte? Morte? Não, ainda não. Andou meio bambo até a cozinha, retirou uma vasilha de água da geladeira. Bebeu direto dela, os copos estavam sujos. Funerária Jerusalém. Eu vou ter que pesquisar onde fica. Voltou ao quarto em duas passadas, sentou todo afobado, abriu o navegador, digitou no site de busca: Funerária Jerusalém. Descobriu que ficava na rua Azul do bairro que vivia, eram três quadras de distância, iria a pé, estava decidido.
Preto, é claro! Tem que ir de preto. Não poderia ir com a regata branca amarelada e esburacada na altura das axilas e nem mesmo o short florido que trajava no momento. Saiu do cômodo e voou pelo quarto para o armário. Cadê? Cadê? Aqui. Tirou uma amassada camisa do armário. Eu passo? É tenho que passar, mas primeiro a calça. Cadê? Cadê? Aqui! Pegou uma calça negra, mas com um buraco na parte esquerda da calça. Tem outra? Não, não tem. Droga! Jogou a calça e a camisa na cama. Meias? Precisa de meias pretas? Melhor né? Cadê? Cadê? Não tem, branco é tranquilo, é só a meia, pegou o único tênis que tinha; claramente preto. O tênis estava deplorável, a camisa amassada e a calça furada, mas era o que ele tinha.
Tem que passar a camisa... passo? Eu passo... não pra quê? Ninguém vai reparar, ninguém sabe que José Augusto é apenas um fracassado de quarenta anos, ninguém sabe, nem saberá. Que horas são? Olhou o relógio, já eram doze horas, mas já? Quanto tempo foi perdido nas roupas? Talvez uma fenda o tempo se abriu e me sugou para dentro e eu não percebi? Talvez o preto fosse uma espécie de cor sagrada em que o contato possibilitava romper as barreiras da realidade, os questionamentos fluíam da cabeça de José Augusto tomando forma na realidade, enfim concluía sempre seus pensamentos com um: “Hmm... devo escrever uma história sobre isso”. Já eram doze horas, isso lhe era inegável, ainda que tentasse justificar com ideias de ficção científica. É realmente não dá para passar. Voltou à cozinha; abriu a geladeira, tinha um pequeno prato com um pedaço de carne, pegou a margarina, caminhou até o fogão, ligou-o, chama alta, derramou quase toda a margarina na frigideira, fritou o bife, o boi morto ardia no metal, chiando, o som agudo causava certa irritação em seus ouvidos, levou o dedo ao ouvido, evitando o som que em poucos segundos cessou. Cortou um pedaço de pão velho perdido pela cozinha em uma cesta perto da geladeira, pôs a carne nele, comeu em duas mordidas. Tomo banho? Cheirou-se, não havia odor algum, não, só troco de roupa. Voltou ao quarto, trocou o folgado short que usava pela camisa amassada e a calça rasgada. Era hora de ir ao funeral.
Saiu do apartamento, trancou a porta, desceu as escadas, abriu o pequeno portão. Começou a andar no quarteirão, o sol estava queimando, os prédios mais distantes apareciam em formas distorcidas em meio ao calor como se fossem visões de uma realidade que nunca existira. Passou o primeiro cruzamento; faltavam três; uma velha corcunda vestida com um vestido florido e com cabelos brancos que pareciam brilhar em meio ao sol esperava no segundo cruzamento, ela quer atravessar? Ajudar uma velha, eu sou o quê, um escoteiro? Isso é tão ridículo. José confrontava a ideia de ajudar uma velha a atravessar a rua e não fazer nada, não importava sua escolha ambas aos seus olhos lhe pareciam ridículas, a primeira era algo quase que irreal, algo como um drama de uma história sem sal, típicas do seu trabalho de escritor menor; a segunda porque em nada mudaria o destino das estrelas no universo, uma pequena ação em uma rua tão pequena, nada poderia mudar o significado do mundo, porém alguma ação de José Augusto já havia mudado o universo? Ele pesava ambas com cuidado, agindo com uma balança perfeitamente regrada, ele sentia o que cada uma poderia causar: no fim concluiu que ajudar ou não ajudar não importava.
Quem sabe a primeira me compre um lugar no céu. Acreditava no céu? Isso não se sabe, nem ele sabia disse ao certo. José ia à igreja algumas vezes, sabia decorado alguns salmos, o pai-nosso, a ave-maria, credo e mais algumas, o tempo que passara na Eucaristia e em sua Crisma, lhe fora cansativo, porém internalizara bem os comandos de Dona Susana, mas não chegou a concluir se tinha uma fé verdadeira ou imposta, a verdade que nem ele sabia no que acreditava: às vezes se baseava puramente na ciência outras vezes falava de coisas imateriais e justificava com destino e outras coisas assim. Era um ser curioso, um escritor sem muito valor, mas bastante curioso.
Com as dúvidas na cabeça e o sol sobre a cabeça, ele se aproximou da velha corcunda. Senhora quer ajuda? Obrigado, meu filho.- disse abrindo um sorriso com os dentes amarelos, demarcados pela falta de alguns, entre os buracos parecia haver um fogo que ardia de dentro de seu ser. Ele a pegou em sua mão, a mão era fria, como se ele sentisse a mão do falecido que veria no funeral. Cuidadosamente, primeiro um pé e depois um outro, cuidado com os carros. Senhora, não precisa se apressar, vamos devagar. Isso, devagar. A velha somente ficava calada, mostrando seu sorriso furado e amarelo. Enfim atravessaram a rua, com certa lentidão típica daqueles que atravessam para o outro lado da rua. Largou a mão fria já na calçada, olhou os olhos da velha que mais pareciam tragar toda a luz e não emitir nenhuma, desafiando os princípios físicos e disse: A senhora tem que tomar cuidad... Tá falando com quem otário?! Disse um garoto com boné para trás que passava pela rua.
José Augusto desviou seu olhar para o jovem que passou e depois retornou para onde deveria estar a velha, mas ela já não estava mais lá. Olhou para os quatros cantos, a velha desaparecera em meio ao sol quente daquela quinta-feira. Como poeira naquele asfalto, a velha sumira diante do mundo, levada pelo vento quente. Como era de tentar justificar tudo José Augusto formava pensamentos desconexos para tentar compreender aquela história: foi o sol, ele pensava, o calor muda a visão e a realidade, apenas pode ser isso, assim como os prédios distorcidos, a velha não passava de uma distorção da realidade, existem algumas teorias físicas que apontam distorções do espaço-tempo, talvez a velha fosse uma extensão dessas distorções, pensava com a cabeça de um físico teórico. Continuou andando pelas cimentadas ruas, o sol queimava, mas ainda andava com passos firmes, formulando outras teorias sobre as distorções do continuum espaço-tempo. Absorto nessas ideias, ele não percebeu que apesar do sol incidir obliquamente sobre seu corpo, ele não tinha sombra, um fato muito mais curioso, haja visto que a velha caminhava logo atrás dele, sem nenhum som, ou seja seu desaparecimento não valia a pena ser investigado porque já reaparecera. Sob o sol forte, ele, enfim, chegou em frente à funerária, uma casa azul, com algumas flores amarelas na entrada e uma árvore murcha. José entrou fazendo o sinal da cruz.
“José”. Helena, há quanto tempo; Helena usava a típica roupa de viúva; negra, usava um véu sobre a cabeça branco que destoava, mas era o mais típica possível. Havia dois vasos com flores vermelhas na sala, no caixão do defunto, mais flores vermelhas e ao redor vários olhos vermelhos e inchados de choro. Perto do caixão estava a mesma velha corcunda do vestido florido, ela abriu o mesmo desdentado sorriso amarelo e José Augusto atônico, desviou o olhar das chamas que ardiam entres os furos de seu sorriso. O que foi José? Parece que viu um fantasma. Não é nada... não é nada, Helena. Ela tinha o nariz e os olhos verdes avermelhados, possivelmente do choro, pensava José. A idade não havia sido severa com Helena, ela ainda continuava bonita quando nos tempos da juventude. Ela um tanto apressada, com medo de não ter outra oportunidade, ela tirou do bolso uma pequena foto e disse: José, o Leonardo pediu para eu te entregar. Ela então entregou a foto amarelada: José e Leonardo jovens, em tempos de faculdade, sentados sobre o capô de um gol branco, José ria e Leonardo sorria olhando para baixo, o sol incidia sobre o vidro e aquele momento ficou capturado como uma alegre lembrança. Bons tempos, do que será que ele morreu? Eu pergunto? É rápido...ele olhou o nariz vermelho e subitamente sua coragem cedera, não, não pergunto, do que adianta saber, em que isso mudaria a situação?
Ele nunca me contou o porquê de vocês terem brigado, disse Helena com um certo tom de inocência na voz revelando seu inerente desejo de saber o porquê de tão bons amigos terem parado de se falar repentinamente, faz tanto tempo- disse lentamente José Augusto- eu nem lembro o motivo... eu devia ter pedido desculpas, ele olhava para os azulejos à portuguesa do chão. Ele também deveria, disse Helena abrindo um sorriso de complacência, sabendo da personalidade cabeça-dura de seu finado marido. Eles se despediram de uma forma silenciosa, Helena foi receber outros que chegavam, José sentou na cadeira de plástico bamba do canto esquerdo, com a foto na mão direita, que manuseava incessantemente entre os dedos, ele olhava fixamente para o caixão, assim como para a velha. Permaneceu sentando no canto por longos trinta minutos, alheio ao mundo; revivendo o garoto solitário que ficou amigo do garoto popular, dos jovens na faculdade, das alegres brincadeiras e queria lembrar o motivo da briga, mas não lembrava, fixava os olhos cansados sobre a foto, esquecera da velha por um momento, tentava lembrar com todas as suas forças o motivo da briga, mas não lembrava. Revisitando suas diáfanas memórias de amizade e juventude, dos namoros e diversões, de seu melhor amigo improvável, fez com que escorresse, por sua face que já enrugava, uma lágrima, somente uma, mas uma escorreu.
Levantou-se, foi-se embora lentamente, sem ninguém perceber, abriu a porta e saiu da funerária, também fazendo o sinal da cruz. A velha do sorriso amarelo o acompanhou; passou pela árvore murcha e as flores da entrada, sob o sol ainda fervente, voltou ao seu apartamento, alheio ao mundo, despercebendo as mudanças que os prédios sofriam, deixando a forma de prismas retos, para uma forma arredondada e curvada. A velha corcunda que o acompanhava, fazia o papel de sua sombra que inexplicavelmente sumira. José Augusto normalmente iria criar teorias científicas, filosóficas ou qualquer outro motivo para aqueles momentos, porém absorvido no passado que revivia em lembranças não pensava nisso, abriu a porta do seu apartamento que rangeu como um último grito de um moribundo, sentia em seu peito uma necessidade de escrever, sem trocar a roupa, comer ou beber água, encaminhou-se ao escritório, colocou a foto em cima da bancada, sentou em frente ao computador, a velha do sorriso amarelo ficara no canto do cômodo observando-o trabalhar, o seu sorriso era cada vez mais macabro, mas o escritor nada notava, apenas digitava, tudo que sentira naquela revisitação de suas memórias. José Augusto escrevera, até o anoitecer e além, o livro de sua vida: “Duas vozes”, a lua já estava alta e as estrelas cantavam, sentiu um grande sono e caiu sobre o teclado dormindo, com um sorriso escancarado, reconhecendo que escrevera uma obra digna de autores como Proust, Machado e Joyce, quem sabe estaria ele ao lado deles, após aquele livro.
A velha aproximou-se, deu-lhe um abraço e trouxe um pequeno cobertor do quarto para José, por uma última vez ela abriu o sorriso amarelo: É uma história bonita. Parabéns, José Augusto. Disse com sua voz fria e profunda que ecoava em uníssono com o silêncio do quarto frio.
“Duas vozes” virou um sucesso, falava-se dela nas ruas, na tevê, ganhara a aclamação de crítica e público, suas passagens eram recitadas por jovens e velhos e até sua abertura, que para os leitores era tão icônica, virou frase de para-choque de caminhão e tatuagens na pele de muitos que nunca viram o rosto de José Augusto, a frase era mais ou menos assim: “Cuide de suas lembranças, elas são o cemitério que você leva na cabeça”.
“Duas vozes” era claramente uma versão poética de sua amizade com Leonardo e todas as aventuras de infância, juventude e maturidade pelas quais passaram. Os críticos que a aclamaram depois, perceberam facilmente essa criação poética das lembranças e suas semelhanças com a realidade. Assim como destacam que foi escrita na quente quinta-feira do funeral de Leonardo e da morte de José Augusto.
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2020.01.10 16:41 KNWRV Vejam oq vcs acham desse meu conto

O funeral
Na estante de madeira, uma coleção de livros; uma televisão sobre a bancada, lâmpada fosca de tungstênio, ele se encontrava deitado sobre o teclado do computador, semi-desperto, na tela do computador se lia: “A vida e a morte de zdweddddddd...”. José Augusto era escritor, vivia de pequenos contos, algumas traduções aqui e outras ali. Dava pra pagar o pequeno apartamento em que vivia. Não tinha mais companhia, terminara com a namorada, o cachorro Tufão morreu há um mês. Vivia, ainda que mal vivia.
Prim,Prim...Ah! Acordou de sobressalto, era aquele maldito telefone, pra quê pagava aquela linha? Ninguém mais ligava ali, bom mas alguém ligava... Foi caminhando zonzo, no andar dos bêbados. Alô! É da casaa do senhor José Augustoo? – falava como se puxasse a última vogal de algumas palavras ou era a ligação- É sim. Quem fala? É Helena, mulher do Leonardo. Do Leonardo? Como ele tá? Já faz muito tempo que eu falei com ele! É assim...humf,humf... ele saiu dessa para uma melhor- disse entre choramingos. Meu deus. O funeral vai ser hoje à tarde, uma da tarde, seria bom se você aparecesse no funeral, ele pediu que eu te entregasse algo. Eu vou sim, claro que vou- falava estupefato- Tá certo... Tá certo. Funerária Jerusalém. Tá certo.
Morto, defunto, funeral... hoje? Uma hora? Mas como? Quando? Ele tava doente? Por que ele não falou nada? Faz o quê? Cinco anos? Seis? Sentou-se consternado, novamente, em frente do computador. Eram oito horas e trinta minutos, depois dessa mórbida conversa sentiu seu lábio rachado como as terras áridas do deserto, levantou-se da cadeira, a visão ficou turva e sentiu uma certa vertigem. Escuridão, tudo negro... morte? Morte? Não, ainda não. Andou meio bambo até a cozinha, retirou uma vasilha de água da geladeira. Bebeu direto dela, os copos estavam sujos. Funerária Jerusalém. Eu vou ter que pesquisar onde fica. Voltou ao quarto em duas passadas, sentou todo afobado, abriu o navegador, digitou no site de busca: Funerária Jerusalém. Descobriu que ficava na rua Azul do bairro que vivia, eram três quadras de distância, iria a pé, estava decidido.
Preto, é claro! Tem que ir de preto. Não poderia ir com a regata branca amarelada e esburacada na altura das axilas e nem mesmo o short florido que trajava no momento. Saiu do cômodo e voou pelo quarto para o armário. Cadê? Cadê? Aqui. Tirou uma amassada camisa do armário. Eu passo? É tenho que passar, mas primeiro a calça. Cadê? Cadê? Aqui! Pegou uma calça negra, mas com um buraco na parte esquerda da calça. Tem outra? Não, não tem. Droga! Jogou a calça e a camisa na cama. Meias? Precisa de meias pretas? Melhor né? Cadê? Cadê? Não tem, branco é tranquilo, é só a meia, pegou o único tênis que tinha; claramente preto. O tênis estava deplorável, a camisa amassada e a calça furada, mas era o que ele tinha.
Tem que passar a camisa... passo? Eu passo... não pra quê? Ninguém vai reparar, ninguém sabe que José Augusto é apenas um fracassado de quarenta anos, ninguém sabe, nem saberá. Que horas são? Olhou o relógio, já eram doze horas, mas já? Quanto tempo foi perdido nas roupas? Talvez uma fenda o tempo se abriu e me sugou para dentro e eu não percebi? Talvez o preto fosse uma espécie de cor sagrada em que o contato possibilitava romper as barreiras da realidade, os questionamentos fluíam da cabeça de José Augusto tomando forma na realidade, enfim concluía sempre seus pensamentos com um: “Hmm... devo escrever uma história sobre isso”. Já eram doze horas, isso lhe era inegável, ainda que tentasse justificar com ideias de ficção científica. É realmente não dá para passar. Voltou à cozinha; abriu a geladeira, tinha um pequeno prato com um pedaço de carne, pegou a margarina, caminhou até o fogão, ligou-o, chama alta, derramou quase toda a margarina na frigideira, fritou o bife, o boi morto ardia no metal, chiando, o som agudo causava certa irritação em seus ouvidos, levou o dedo ao ouvido, evitando o som que em poucos segundos cessou. Cortou um pedaço de pão velho perdido pela cozinha em uma cesta perto da geladeira, pôs a carne nele, comeu em duas mordidas. Tomo banho? Cheirou-se, não havia odor algum, não, só troco de roupa. Voltou ao quarto, trocou o folgado short que usava pela camisa amassada e a calça rasgada. Era hora de ir ao funeral.
Saiu do apartamento, trancou a porta, desceu as escadas, abriu o pequeno portão. Começou a andar no quarteirão, o sol estava queimando, os prédios mais distantes apareciam em formas distorcidas em meio ao calor como se fossem visões de uma realidade que nunca existira. Passou o primeiro cruzamento; faltavam três; uma velha corcunda vestida com um vestido florido e com cabelos brancos que pareciam brilhar em meio ao sol esperava no segundo cruzamento, ela quer atravessar? Ajudar uma velha, eu sou o quê, um escoteiro? Isso é tão ridículo. José confrontava a ideia de ajudar uma velha a atravessar a rua e não fazer nada, não importava sua escolha ambas aos seus olhos lhe pareciam ridículas, a primeira era algo quase que irreal, algo como um drama de uma história sem sal, típicas do seu trabalho de escritor menor; a segunda porque em nada mudaria o destino das estrelas no universo, uma pequena ação em uma rua tão pequena, nada poderia mudar o significado do mundo, porém alguma ação de José Augusto já havia mudado o universo? Ele pesava ambas com cuidado, agindo com uma balança perfeitamente regrada, ele sentia o que cada uma poderia causar: no fim concluiu que ajudar ou não ajudar não importava.
Quem sabe a primeira me compre um lugar no céu. Acreditava no céu? Isso não se sabe, nem ele sabia disse ao certo. José ia à igreja algumas vezes, sabia decorado alguns salmos, o pai-nosso, a ave-maria, credo e mais algumas, o tempo que passara na Eucaristia e em sua Crisma, lhe fora cansativo, porém internalizara bem os comandos de Dona Susana, mas não chegou a concluir se tinha uma fé verdadeira ou imposta, a verdade que nem ele sabia no que acreditava: às vezes se baseava puramente na ciência outras vezes falava de coisas imateriais e justificava com destino e outras coisas assim. Era um ser curioso, um escritor sem muito valor, mas bastante curioso.
Com as dúvidas na cabeça e o sol sobre a cabeça, ele se aproximou da velha corcunda. Senhora quer ajuda? Obrigado, meu filho.- disse abrindo um sorriso com os dentes amarelos, demarcados pela falta de alguns, entre os buracos parecia haver um fogo que ardia de dentro de seu ser. Ele a pegou em sua mão, a mão era fria, como se ele sentisse a mão do falecido que veria no funeral. Cuidadosamente, primeiro um pé e depois um outro, cuidado com os carros. Senhora, não precisa se apressar, vamos devagar. Isso, devagar. A velha somente ficava calada, mostrando seu sorriso furado e amarelo. Enfim atravessaram a rua, com certa lentidão típica daqueles que atravessam para o outro lado da rua. Largou a mão fria já na calçada, olhou os olhos da velha que mais pareciam tragar toda a luz e não emitir nenhuma, desafiando os princípios físicos e disse: A senhora tem que tomar cuidad... Tá falando com quem otário?! Disse um garoto com boné para trás que passava pela rua.
José Augusto desviou seu olhar para o jovem que passou e depois retornou para onde deveria estar a velha, mas ela já não estava mais lá. Olhou para os quatros cantos, a velha desaparecera em meio ao sol quente daquela quinta-feira. Como poeira naquele asfalto, a velha sumira diante do mundo, levada pelo vento quente. Como era de tentar justificar tudo José Augusto formava pensamentos desconexos para tentar compreender aquela história: foi o sol, ele pensava, o calor muda a visão e a realidade, apenas pode ser isso, assim como os prédios distorcidos, a velha não passava de uma distorção da realidade, existem algumas teorias físicas que apontam distorções do espaço-tempo, talvez a velha fosse uma extensão dessas distorções, pensava com a cabeça de um físico teórico. Continuou andando pelas cimentadas ruas, o sol queimava, mas ainda andava com passos firmes, formulando outras teorias sobre as distorções do continuum espaço-tempo. Absorto nessas ideias, ele não percebeu que apesar do sol incidir obliquamente sobre seu corpo, ele não tinha sombra, um fato muito mais curioso, haja visto que a velha caminhava logo atrás dele, sem nenhum som, ou seja seu desaparecimento não valia a pena ser investigado porque já reaparecera. Sob o sol forte, ele, enfim, chegou em frente à funerária, uma casa azul, com algumas flores amarelas na entrada e uma árvore murcha. José entrou fazendo o sinal da cruz.
“José”. Helena, há quanto tempo; Helena usava a típica roupa de viúva; negra, usava um véu sobre a cabeça branco que destoava, mas era o mais típica possível. Havia dois vasos com flores vermelhas na sala, no caixão do defunto, mais flores vermelhas e ao redor vários olhos vermelhos e inchados de choro. Perto do caixão estava a mesma velha corcunda do vestido florido, ela abriu o mesmo desdentado sorriso amarelo e José Augusto atônico, desviou o olhar das chamas que ardiam entres os furos de seu sorriso. O que foi José? Parece que viu um fantasma. Não é nada... não é nada, Helena. Ela tinha o nariz e os olhos verdes avermelhados, possivelmente do choro, pensava José. A idade não havia sido severa com Helena, ela ainda continuava bonita quando nos tempos da juventude. Ela um tanto apressada, com medo de não ter outra oportunidade, ela tirou do bolso uma pequena foto e disse: José, o Leonardo pediu para eu te entregar. Ela então entregou a foto amarelada: José e Leonardo jovens, em tempos de faculdade, sentados sobre o capô de um gol branco, José ria e Leonardo sorria olhando para baixo, o sol incidia sobre o vidro e aquele momento ficou capturado como uma alegre lembrança. Bons tempos, do que será que ele morreu? Eu pergunto? É rápido...ele olhou o nariz vermelho e subitamente sua coragem cedera, não, não pergunto, do que adianta saber, em que isso mudaria a situação?
Ele nunca me contou o porquê de vocês terem brigado, disse Helena com um certo tom de inocência na voz revelando seu inerente desejo de saber o porquê de tão bons amigos terem parado de se falar repentinamente, faz tanto tempo- disse lentamente José Augusto- eu nem lembro o motivo... eu devia ter pedido desculpas, ele olhava para os azulejos à portuguesa do chão. Ele também deveria, disse Helena abrindo um sorriso de complacência, sabendo da personalidade cabeça-dura de seu finado marido. Eles se despediram de uma forma silenciosa, Helena foi receber outros que chegavam, José sentou na cadeira de plástico bamba do canto esquerdo, com a foto na mão direita, que manuseava incessantemente entre os dedos, ele olhava fixamente para o caixão, assim como para a velha. Permaneceu sentando no canto por longos trinta minutos, alheio ao mundo; revivendo o garoto solitário que ficou amigo do garoto popular, dos jovens na faculdade, das alegres brincadeiras e queria lembrar o motivo da briga, mas não lembrava, fixava os olhos cansados sobre a foto, esquecera da velha por um momento, tentava lembrar com todas as suas forças o motivo da briga, mas não lembrava. Revisitando suas diáfanas memórias de amizade e juventude, dos namoros e diversões, de seu melhor amigo improvável, fez com que escorresse, por sua face que já enrugava, uma lágrima, somente uma, mas uma escorreu.
Levantou-se, foi-se embora lentamente, sem ninguém perceber, abriu a porta e saiu da funerária, também fazendo o sinal da cruz. A velha do sorriso amarelo o acompanhou; passou pela árvore murcha e as flores da entrada, sob o sol ainda fervente, voltou ao seu apartamento, alheio ao mundo, despercebendo as mudanças que os prédios sofriam, deixando a forma de prismas retos, para uma forma arredondada e curvada. A velha corcunda que o acompanhava, fazia o papel de sua sombra que inexplicavelmente sumira. José Augusto normalmente iria criar teorias científicas, filosóficas ou qualquer outro motivo para aqueles momentos, porém absorvido no passado que revivia em lembranças não pensava nisso, abriu a porta do seu apartamento que rangeu como um último grito de um moribundo, sentia em seu peito uma necessidade de escrever, sem trocar a roupa, comer ou beber água, encaminhou-se ao escritório, colocou a foto em cima da bancada, sentou em frente ao computador, a velha do sorriso amarelo ficara no canto do cômodo observando-o trabalhar, o seu sorriso era cada vez mais macabro, mas o escritor nada notava, apenas digitava, tudo que sentira naquela revisitação de suas memórias. José Augusto escrevera, até o anoitecer e além, o livro de sua vida: “Duas vozes”, a lua já estava alta e as estrelas cantavam, sentiu um grande sono e caiu sobre o teclado dormindo, com um sorriso escancarado, reconhecendo que escrevera uma obra digna de autores como Proust, Machado e Joyce, quem sabe estaria ele ao lado deles, após aquele livro.
A velha aproximou-se, deu-lhe um abraço e trouxe um pequeno cobertor do quarto para José, por uma última vez ela abriu o sorriso amarelo: É uma história bonita. Parabéns, José Augusto. Disse com sua voz fria e profunda que ecoava em uníssono com o silêncio do quarto frio.
“Duas vozes” virou um sucesso, falava-se dela nas ruas, na tevê, ganhara a aclamação de crítica e público, suas passagens eram recitadas por jovens e velhos e até sua abertura, que para os leitores era tão icônica, virou frase de para-choque de caminhão e tatuagens na pele de muitos que nunca viram o rosto de José Augusto, a frase era mais ou menos assim: “Cuide de suas lembranças, elas são o cemitério que você leva na cabeça”.
“Duas vozes” era claramente uma versão poética de sua amizade com Leonardo e todas as aventuras de infância, juventude e maturidade pelas quais passaram. Os críticos que a aclamaram depois, perceberam facilmente essa criação poética das lembranças e suas semelhanças com a realidade. Assim como destacam que foi escrita na quente quinta-feira do funeral de Leonardo e da morte de José Augusto.
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2019.09.15 19:11 YareYareDaze007 Minha "breve" história amorosa

Essa História que será aqui contada, nesse livro, é a jornada de um garoto chamado Giovane, um garoto quieto, de poucos amigos, porém muito estudioso, sempre tirava boas notas na escola. E é exatamente lá que nossa história começa.
No ano de 2017, nosso protagonista está sentado tranquilamente em sua mesa, na sala de aula, quando repentinamente ao olhar de relance para a porta, ele percebe alguém entrando, mais especificamente uma garota, uma linda garota, que instantaneamente desperta o encanto de Giovane. Vale lembrar que naquela época, ele era um garoto de 13 anos, sem nenhuma preocupação além de vídeo-games e estudos, mas tudo aquilo estava prestes a mudar. Naquele momento, ele havia descoberto o amor, que muitas vezes pode ser comparado à uma benção ou maldição. Ao ver a garota de nome desconhecido entrar, Giovane logo ficou surpreso com tamanha beleza, porém no momento não fez muita coisa. Apenas voltou aos estudos e tentou não pensar muito naquilo, porém era quase impossível, a cada conta que fazia, a cada texto que lia, a imagem da garota continuava a aparecer em sua cabeça. O que era muito ruim, considerando o fato de Giovane sempre dar muita importância aos estudos, aquilo estava o atrapalhando. Mas logo o nome da garota foi revelado: Sabrina. Giovane ouvira a professora dizer esse nome na chamada e viu a garota responder.
Não demorou muito para ele se dar conta do que havia acontecido. Ele sabia que estava sob o efeito da droga mais poderosa que existe: O Amor. E para o amor não existe cura, apenas o tempo, que foi justamente o que decidiu fazer: dar um tempo e ver o que acontecia. Giovane Não tinha ideia de como os eventos se desenrolariam dali em diante, não sabia o quanto sofreria pensando nela.
Passado algum tempo, cerca de 3 meses, e o amor de Giovane por Sabrina continuava aumentando, como uma fogueira que é atiçada pelo vento. No entanto, uma dúvida ainda pairava sobre sua cabeça: O sentimento era recíproco? Sabrina via Giovane com outros olhos? Ele não sabia, e isso estava o enlouquecendo.
Um mês depois do acontecimento anterior, ele havia pensado em uma maneira de acabar com suas dúvidas, era o único modo que nosso protagonista havia pensado: Falar à Sabrina sobre seus sentimentos. Porém, Giovane era um garoto extremamente tímido, o que deixava essa hipótese quase impossível. Ele tinha medo de contar o que sentia e não ser correspondido, ou ainda pior, ser ridicularizado pelas pessoas ao redor da escola. Chega o fim do ano e Giovane não havia conseguido se declarar. "Meu Deus, mas e se ela não estiver aqui o ano que vem? " Pensava.
2018, início do ano. E para sua surpresa, ele estava na mesma sala que Sabrina. Seria o destino dando uma segunda chance a ele? Talvez. E como dito anteriormente, seu amor não diminuía, apenas crescia dia após dia. Nosso protagonista tem 14 anos agora, muito mais maduro, certo? Errado! Ele continuava com uma ideologia de " deixar o rio fluir ", ou seja, não fazer nada e deixar que o destino cuidasse do resto. Claramente essa tática não deu certo. Porém, Giovane possuía um amigo chamado Marcos, cujo qual se dava muito bem com as mulheres. E fui justamente a ele que Giovane foi pedir ajuda. E acontece que Marcos era realmente bom no que fazia, e milagrosamente conseguiu fazer Sabrina se aproximar consideravelmente de nosso protagonista, que estava pensando sobre a vida e as decisões que havia tomado e aparentemente não interagindo com Sabrina, o que fez Marcos aparecer e talvez ter causado o maior arrependimento da vida de Giovane. Ou não? Marcos chegou conversando com ambos e acabou deliberadamente por falar que Giovane estava apaixonado por Sabrina, o que deixou nosso protagonista completamente paralisado, como se tivesse visto um fantasma, sem nada para dizer, como se tivesse visto a morte cara-a-cara. E Sabrina pareceu incrédula do fato, tanto que até se levantou da cadeira na qual estava sentada e estava se dirigindo a seu lugar, quando Marcos a parou e tentou argumentar com ela, mas nada parecia dar certo. Enquanto isso, nosso protagonista continua sentado imóvel na mesma posição que havia começado a conversa. Passados cerca de 3 minutos, Sabrina chega à mesa de Giovane e pergunta:-O que aconteceu?
-Nada. Diz Giovane
-Você está com cara de bravo. Foi alguma coisa que eu fiz?
-Não, não foi nada.
E Sabrina sai daquela mesa e volta para a dela.
A partir daquele dia, Giovane se tornou outra pessoa, alguém completamente novo. Ao invés do garoto alegre e piadista de sempre, ele havia se tornado alguém quase depressivo, não falava quase nada, passava horas parado pensando na vida, não fazia mais tantas piadas. Até o dia 10 de agosto de 2018, quando ele decide que não vale mais a pena sofrer tanto por conta de falta de coragem. Na escola, durante a aula de geografia a lição era fazer um mapa-múndi e foi o que nosso protagonista fez, porém Marcos tinha um plano para ambos ganharem nota apenas com o esforço de Giovane, que aceitou ajudar já que poderia precisar de algum favor de Marcos algum dia. E foi um plano, absurdamente bem bolado, executado com maestria e finalizado com êxito.
Na noite daquele mesmo dia, Giovane decide cobrar a ajuda que ofereceu à marcos. Mandou uma mensagem para ele e combinou que iriam executar um plano para que nosso guerreiro Giovane tivesse a coragem de se declarar à belíssima donzela Sabrina. Marcos a convenceria a segui-lo e passaria por um local combinado, onde Giovane apareceria e abriria seu coração para ela, acabando de uma vez por todas com isso, do jeito bom, que Giovane sairia com uma namorada e se livraria de sua tristeza ou do modo ruim, que era o que Giovane achava mais provável, onde ele seria completamente rejeitado e jogado à depressão para sempre, porém esquecendo de Sabrina. Nada poderia impedir esse plano de funcionar.
Exceto uma coisa: O esquecimento de Marcos que não conseguiu atrair Sabrina até o local combinado, o que fez com que Giovane saísse vagando pela escola envolto em seus pensamentos, e andando sem parar, para praticar pelo menos de alguma maneira, algum exercício, contudo ao fazer a volta na escola várias e várias vezes, no caminho Giovane se deparava com Sabrina andando com uma amiga e seu namorado, e durante algumas dessas vezes ele pôde ouvir claramente a amiga de Sabrina dizer: " quem quer catar a Sabrina? " Duas vezes na mesma hora em que ele estava passando e ainda ouviu mais uma última vez: " Ela está se doando ". Giovane estava começando a ligar os pontos, tudo começava a fazer sentido em sua cabeça. A vontade dele era alterar o curso de sua caminhada e abrir seu coração a ela, porém se fizesse isso, ele estaria desperdiçando um favor de Marcos, então Giovane Simplesmente continuou sua jornada de volta à sala de aula. Ele estava prestes a descobrir o significado de tudo que aconteceu.
No final daquele dia, Giovane decidiu perguntar à marcos se ele havia se esquecido. E de fato ele havia, no entanto se ofereceu para fazer o mesmo plano no dia seguinte. Giovane concordou.
Terça-feira, 14 de agosto de 2018, nosso protagonista vai para a escola apreensivo pensando em como vai ser, no que ele vai dizer..., mas durante a aula de história, nosso herói percebe que Sabrina estava muito impressionada com o professor novo. Estaria ela realmente afim do professor? Ou seria apenas uma brincadeira? Ele não sabia e isso o deixava apreensivo. Na próxima aula, a de matemática, a professora havia mudado Sabrina de lugar. E coincidentemente, o lugar que ela foi designada era bem perto do lugar de Giovane. Seria esse o destino colaborando mais uma vez para que tudo desse certo em sua vida?
No recreio, tudo estava combinado com Marcos. Só lhe restava sair da sala e seguir com o plano. Acontece que um amigo de nosso protagonista, conhecido pelo codinome Sem Mão, decidiu segui-lo e ver o que aconteceria e como acabaria. Giovane conta o plano à Sem Mão, que fica impressionado e diz que aquele plano era como fazer roleta russa com 5 balas. No entanto, Marcos demorou muito para fazer o plano e quando fez, não fez corretamente: Ele simplesmente disse para Sabrina que Giovane gostaria de conversar separadamente com ela, enquanto nosso protagonista apenas passava por ela e ia direto ao banheiro, pois estava muito tenso. Acaba o intervalo e Giovane se dirige à sala de aula. Na última aula, logo em seguida da de educação física, todos voltam para a sala e se preparam para a aula de matemática e provavelmente a coisa mais inesperada desse livro acontece: Ele pensando na vida como sempre, consegue ouvir Sabrina e Vinícius, um outro colega de sala, discutirem sobre voltar ao lugar anterior deles, e de repente ouve ela dizer que aquele lugar era bom porque ela conseguia ter uma boa vista de uma coisa. Instantaneamente nosso protagonista percebeu que essa "coisa" era nada mais nada menos que ele mesmo, até porque em certo momento dessa conversa ele pôde perceber Vinícius responder: Do G? Que foi logo respondido com uma resposta de Sabrina: Por que você não grita logo de uma vez?! Seguido disso, Vinícius em tom de brincadeira, aumenta levemente sua voz e repete a frase anterior. A teoria das cinco balas de Sem Mão acabara de ser refutada, pois com essas informações, suas chances aumentaram consideravelmente, deixando a arma com apenas uma bala. Estava muito claro para Giovane que Sabrina aparentemente gostava dele, mas não queria que isso fosse exposto. Passado certo tempo da aula, mais uma vez Sabrina diz que é um bom lugar e que ela consegue observar muito bem essa "coisa" e foi respondia por Vinícius: Mas do seu lugar anterior, você também consegue ver. E logo veio a resposta: Sim, mas daqui eu consigo ver mais de perto, logo esse lugar é melhor. Ele sabia que, ou se tratava dele ou de algum de seus amigos que sentavam perto, e estava bem convencido de que se tratava dele. Nesse momento, Giovane estava pulando de alegria por dentro, mas por fora só se via sua expressão mais comum: a de indiferença. Ninguém simplesmente olhando, poderia saber a felicidade que residia dentro de Giovane naquele instante. Ele foi para casa se sentindo renovado e feliz, só não voltou saltitando por motivos de masculinidade. O que aconteceria depois?
No dia seguinte, Giovane não foi para a escola. Ele havia ido ao médico, e como o sistema de saúde do Brasil não é dos melhores, não conseguiu voltar a tempo de ir para a escola. Ainda nesse dia, pela primeira vez ele decide tirar seu bigode e por incrível que pareça, se achou mais bonito e se sentiu deveras confiante em sua jornada. Por volta das 18 horas, conversa por mensagens com seu amigo Sem Mão e lhe conta sobre o que havia descoberto ouvindo aquela conversa, e para desanimar um pouco nosso herói, Sem Mão diz que o "G" mencionado na conversa, poderia ser de Gustavo, outro aluno da mesma sala, mas Giovane prefere acreditar que ela se referia a ele. Logo em seguida, começa a conversar com Marcos, que também fica ciente da situação e diz:
- Ela está brincando com você, cara...
- Não, estou tão confiante que apostaria cinco reais que ela não está brincando!
- Cinco reais? Apostado então! Mas para você ganhar, ela tem de deixar explícito que aceita você. Assim como para eu ganhar, ela deve deixar explícito que rejeita você.
- Claro.
Giovane não possuía cinco reais, nem sabia onde conseguir, mas estava confiante.
16 de agosto de 2018, nosso protagonista aparece na escola e diferentemente do último dia, não parecia tão tenso, parecia até mesmo confiante do que iria fazer. Logo Marcos apareceu:
- Está fechada a aposta de hoje?
- Com certeza!
- Você sabe que vai perder, né?
- Certamente que não, estou tão confiante que nem trouxe o dinheiro, como sinal de que sei que não vou falhar! – Cada frase que nosso protagonista falava, era dita com convicção.
- Se está tão confiante assim, suba a aposta para dez reais!
Giovane pensou por alguns segundos. Ele não tinha esse dinheiro em mãos, mas para mostrar confiança à Marcos e a si mesmo, subiu a aposta.
- Feito!
No instante que disse isso, o sorriso malicioso que habitava o rosto de Marcos fora substituído por uma expressão de espanto. Não podia acreditar que nosso herói estava tão confiante. Porém, durante toda essa conversa na aula, Marcos decide contar à professora de ciências sobre a aposta, e para a surpresa de ambos, ela havia achado uma aposta interessante.
15:30, havia chegado a hora do intervalo, a hora da verdade. Quando pôs o pé para fora da sala de aula, soube que duas coisas importantíssimas estavam em jogo: Seu futuro amoroso e dez reais, que podem não parecer muito, mas na época que o país estava... Ele achava que seria fácil, mas estava muito enganado, pois quando estava fazendo o reconhecimento do melhor lugar para a abordagem, pôde sentir sua perna fraquejar. Depois de dar algumas voltas na escola e consequentemente acabar encontrando com Sabrina no caminho, ele havia achado que estava pronto e quando foi procurar seu alvo em movimento, não o encontrou, no entanto, logo descobriu que ela estava sentada, com sua amiga já mencionada anteriormente. Não havia mais escapatória, teria de se declarar na próxima volta e podia sentir seu coração bater cada vez mais forte ao se aproximar do local. Infelizmente, ao chegar e estar preparado, se depara com mais 4 garotas conversando com Sabrina e sua amiga, o que fez nosso herói alterar o curso e ao invés de parar, acabou seguindo sua trajetória comum. Faria na próxima volta, não importava o que acontecesse, porém, ao chegar novamente e ver que só estavam ela e sua amiga sentadas, não conseguiu. Era como se uma força desconhecida o impedisse.
Bate o sinal para todos voltarem para suas salas de aula e nosso protagonista entra e percebe que teria uma aula vaga, e logo seu lamento em não ter conseguido se declarar, se tornou em forças para tentar agora que não haviam tantas pessoas lá fora. E mais uma vez não conseguiu, até que Sem Mão propõe um desafio: reproduzir um desenho de seu amigo Raul, um cara vidrado em desenhar, e Giovane aceita, pois ficar andando e se lamentando não era a melhor atividade. Chegando onde Raul estava, Sem Mão explica o desafio, porém, por algum motivo Raul pega uma folha e corta em duas, dando uma parte para Sem Mão e outra a si mesmo. Giovane não se importa. Na verdade, parecia não se importar com mais nada depois de ter fracassado em conversar com uma garota. Sem Mão reproduz um desenho de um homem com terno roxo e gravata que Raul havia feito. A única diferença, no entanto, foi que sua reprodução ficou parecendo o cruzamento de um desenho de uma criança sem talento com um feto malformado em um pote com formol. Após isso, aparentemente Sem Mão ficou tão entediado quanto nosso protagonista e decidiu voltar a andar, quando de repente veem Marcos e o namorado da amiga de Sabrina tentando tirar a namorada de Marcos e a amiga de Sabrina de um banco no qual estavam todas sentadas. Giovane pensou que poderia ser Marcos querendo ajudá-lo a conseguir, mas qual seria sua motivação além de perder dinheiro? E eles conseguiram tirar as garotas do banco, deixando Sabrina sozinha, que decidiu levantar e começar a andar, mas nosso herói não pensou em abordá-la, simplesmente não tinha a coragem para isso. E acontece que ele era um cara muito corajoso quando se tratavam de brigas e tudo mais (até enfrentou um bando de garotos que estavam o incomodando uma vez), mas quando se tratava de garotas, ele não sabia o que fazer. Depois disso voltou para a sala a tempo de acompanhar as duas últimas aulas de geografia. Contudo, no final da última aula, Marcos veio conversar com nosso herói:
- E aí cara, cadê meus dez reais?
- Eu não falei com ela, logo não tomei um fora, o que significa que eu ainda fico com meu dinheiro.
- Porra, cara. Qual a dificuldade? É só chegar lá e falar " eu estou afim de você, vamos ficar juntos? " E acabou.
- Se fosse tão fácil assim, eu já teria feito há um ano e oito meses atrás...
- Mas é fácil!
- Não para mim. Me falta coragem.
Então Marcos decide tomar uma abordagem mais agressiva.
- Olha lá a bunda dela como é grande! Você não quer ter isso?
Giovane continuava dizendo que não tinha coragem.
- Olha lá, o cara foi dar tchau para ela e passou a mão na bunda dela! E ela ainda deu risada! Você vai deixar o cara fazer isso com sua futura esposa?
O sangue de Giovane fervia, como se ele mesmo fosse explodir a qualquer momento, mas ele era um cara calmo e conseguiu se manter normalmente apenas dizendo " calma e tranquilidade " a si mesmo enquanto Marcos dizia:
- Se amanhã você não conseguir, você vai ter de dizer para todo mundo que você é um merda e eu sou superior!
- Okay, já me considero um merda normalmente...
Mas aquela conversa lhe deu forças para o que ele faria no dia seguinte.
Dia 17 de agosto de 2018, nosso herói está prestes a sair de casa, enquanto seu pai assistia tevê, e de relance, pôde ver a notícia mais bizarra que já havia visto em toda a sua vida: " Homem-Aranha do crime " que aparentemente era um ladrão que escalava prédios tão bem que recebeu esse nome.
Chegando na escola, pronto para fazer um trabalho de artes, acaba descobrindo que haveria outra aula vaga, já que sua professora tinha faltado, o que o deixou feliz e enraivecido. Quando já havia saído da sala e estava andando pela escola, começa a falar com Sem Mão desse livro que está sendo escrito agora mesmo.
- Vai ter muita coisa nesse livro!
- Essa conversa também?
- Provavelmente, já que eu vou colocar qualquer coisa que pareça insignificante o suficiente no lugar de alguma informação que seria crucial, ou seja, essa conversa vai direto para ele.
- Bem, isso não seria meio que...
- Um Inseption muito foda!
- Eu ia dizer quebra da quarta parede, mas Inseption também está valendo.
- Não é bem uma quebra da quarta parede. Eu só estaria fazendo isso se eu dissesse: " Ei, você aí que está lendo esse livro, como é que você está? "
- É, realmente...
Ao andar, se deparava algumas vezes com Sabrina andando com Marcos e outra pessoa não apresentada anteriormente: Kauã. Em algum momento, Marcos tentou parar Giovane o empurrando e lembrando que ele tinha de concluir sua tarefa naquele dia, ou então seria um fracassado.
- Você tem até hoje para conseguir.
- Veja bem, meu amigo, até a meia-noite ainda é hoje.
E essa foi uma sacada bem esperta, tenho que admitir. Enfim, nosso protagonista continuou andando um pouco até que...
- Giovane! Chega aqui! – Disse Marcos aos berros sentado em um local perto de uma árvore.
- Porra... – Disse Giovane.
E foi andando até chegar a ele.
- Que foi, cara? – Perguntou em tom de desânimo.
Eu preciso que você tire uma foto.
" Uma foto? " Pensou Giovane, achando que poderia ter um esquema armado por Marcos.
- Ok, vamos lá!
E foram caminhando em direção à uma outra parte da escola. Quando chegaram, nosso herói se pôs em posição e segurando o celular de Marcos, estava pronto para fotografar. Enquanto olhava para a tela do celular, podia ver Sabrina e sua beleza, ao mesmo tempo que pensava " Caralho, eu sou um merda meu irmão! " E tirou a foto. No entanto, o que não sabia, é que quando já ia se retirando do local, Marcos o chamou e disse:
- Não, cara. A gente só quer que pegue essa parte da parede.
- Ah, ok.
E novamente estava em posição observando Sabrina pela câmera, e logo tirou outra foto. E dessa vez, conseguiu voltar à sua rota sem ser chamado mais uma vez. Andava e andava, sem rumo, sem destino, sem coragem, quando com sua super audição pôde ouvir Sabrina discutindo com Marcos, atrás dele.
Ouvindo isso, ela decide desafiar Marcos para uma briga, e ele logo se acovarda. Como Giovane, ele não tinha coragem. Quanta hipocrisia, não é mesmo, caro leitor? No entanto, ele logo teve uma ideia.
- Vai lá e usa essa raiva no Giovane!
E Giovane continuava andando na frente apenas ouvindo essa conversa, quando foi chamado.
- Giovane! Chega aqui!
E lá ele foi conversar com ele.
- O que foi dessa vez?
- A Sabrina quer te dar um soco.
Mas ela não queria.
- Não, eu não vou! – Disse ela.
- Por que não? – Perguntou Marcos
- Porque eu estou com raiva de você, não dele!
Mas depois dessa breve conversa, Giovane notou um olhar de Sabrina dirigido ao nosso herói. Sabrina realmente teria olhado para ele da forma que imaginava? Ou só estava ficando louco? Descobriria tudo isso em breve...
Dia 18 de agosto de 2018, sábado, por volta das 22:30 da noite Giovane é contatado por Marcos com uma mensagem:
- E aí, cara?
- Opa.
- Tudo beleza, cara?
- Tudo de boa.
- Então, cara... eu acho que você perdeu a aposta.
- Não, pois a aposta não tinha prazo. A única coisa que tinha prazo era eu dizer que sou um merda e a sexta já passou, então você foi enganado...
- Aí é que está, meu amigo quem está se enganando é você mesmo. O único que está sofrendo por amor é você.
- Sim, mas ainda assim, a cada dia minha coragem vai aumentando...
- Não se iluda meu pobre amigo. Esse seu coração não merece sofrer!
- Eu estou apenas contando os fatos.
- Não ame aquela garota, ela não merece você.
- Se fosse tão fácil assim... E você não vai me fazer desistir, porque sou brasileiro e brasileiro não desiste nunca!
- Entendo, apenas não quero que sofra por algo que não tem futuro.
- Eu já sofri para caralho, eu tentar isso não vai aumentar a dor que eu sinto por não estar ao lado dela.
- Você realmente quer isso, não quer?
- Sim, porra!
- Para que você possa ver que eu não estou mentindo. Eu nunca disse isso para você, porém... eu realmente não tenho nada para fazer.
- Etcha porra!
- Sim, essa foi a única palavra que você nunca me ouviu dizer.
- E qual seria? – Perguntou Giovane apenas para ver Marcos admitindo que estava tão perdido quanto ele.
- Eu não sei o que fazer.
- Ca ra lhou.
- Por conta dela, não tem muito o que fazer.
- Isso mostra que é um caso absurdamente difícil.
- Sim, porém não impossível.
- Até porque nada é impossível, exceto o Palmeiras ganhar um Mundial. Isso é impossível.
- Kkk verdade. Como eu já vi que você não vai desistir da Sabrina...
- Certamente que não.
- Eu vou pelo menos tentar ajudar.
- Que bondoso.
- Porém, como nada na vida é perfeito, eu vou usar minhas técnicas...
- Caralho. Tenho trauma dessas técnicas.
- Pode apostar! Até porque, eu aprimorei elas...
- Acho bom mesmo, kkk
- Porém não foi para um lado bom! Foi para um lado mais extremo.
- Puta merda.
- Eu já pensei no que vou fazer. Funciona muito em filmes e novelas.
- Diga-me.
- Vou trancar vocês dois, em algum lugar sozinho.
- Caralho. – Giovane já sabia que aquele plano não iria funcionar, porém decidiu ouvir até o fim.
- Vai ser perfeito. Você vai ver, aí é por sua conta. Na verdade, a parte mais difícil sempre vai ser para você.
- Eu estou com um certo medo do que pode acontecer.
- Ela pode falar tudo que sente por você, ou ela pode ficar de fato com você.
- Ou pode não acontecer nada.
Depois de um tempo de conversa Marcos se convenceu de que seu plano não era dos melhores. Até que disse:
- Eu te ajudo e você me ajuda. Eu te ensino o que sei, e você o que sabe...
- O que exatamente você precisa?
- Eu quero saber como você pensa tanto e quero saber como você é tão concentrado, etc....
- Caralho, sério?
- Sim.
- Ok, aqui vai. Não tem segredo: Você só tem que pensar que sua vida dependesse daquilo. Mas, o lance de ser pensativo, acho que é porque eu não tenho muito o que fazer, apenas pensar.
- Ótimo!
- Espero ter ajudado.
- Ajudou sim, muito obrigado. Agora o que você precisa?
- Fora o lance da Sabrina, nada.
- A melhor opção seria chegar nela em alguma hora em que ela estivesse sozinha ou falar que é uma conversa em particular.
- Sim, o lance é que eu preciso de coragem.
- Quer saber, você transmite confiança. Algo que eu queria muito transmitir.
- Só reprimir suas emoções e mostrar nos momentos mais cruciais.
- Como assim?
- Você nunca sabe se eu estou feliz ou triste, certo?
- Certo.
- Mas as minhas emoções mudam. Tudo que eu faço é mostrar o que eu quero que os outros vejam: A minha cara de indiferença de sempre.
- Porra.
- É basicamente só isso.
- Valeu, cara.
- Você me ajuda muito, estou retribuindo.
- Muito obrigado. Mesmo, cara.
- Não há de quê.
Dia 19 de agosto de 2018, Marcos envia uma mensagem por volta das 21:00 para Giovane:
- Cara, estamos na mesma situação. Eu me apaixonei e ela não dá bola para mim. Fudeu, eu me apaixonei. Isso não é natural no universo.
- Vamos conversar.
- Fudeu.
- Você se fodeu.
- Sim, Fudeu. Eu me apaixonei e isso não é normal da porra da natureza! Eu sou Marcos Ribeiro, não posso me apaixonar!
- Agora sente o que eu sinto há quase dois anos. Não é fácil quando é com você, né?
- Literalmente não. Mano, ela é maravilhosa e não me dá bola. Nem com meus truques e experiência não consigo.
- Você sabe que se eu conseguir ficar com a Sabrina e você não pegar essa mina, o mundo deu uma puta volta.
- Sim.
- Algo de errado não está certo.
- Nem um pouco. Mas, mano ela é perfeita! Pensa na Sabrina e multiplica por 20.
- Impossível!
- Juro.
- Para mim não existe nenhuma garota na face da terra que se compare à beleza da Sabrina. Acho que o amor faz isso...
- Mano, Fudeu. Eu me apaixonei. Pera aí...
- Eu poderia ser muito cuzão e não ajudar, mas você tentou me ajudar, então farei o que puder.
- Pronto. Não sou mais apaixonado.
O amor não é brincadeira de criança, é coisa séria e não se livra do amor tão rapidamente. E Giovane sabia disso, então ou Marcos não estava apaixonado desde o início, ou ainda estava apaixonado ou talvez estivesse inventando tudo aquilo.
- Ata kkk.
- Sério, passou. Eu me controlei.
- O amor vai e vem como uma montanha-russa.
- Não. Não comigo.
E foi então que nosso herói se preparou para fazer um dos melhores discursos de todos os tempos.
- Você pode ter esquecido agora, mas vai pensar nela de novo. E aí fodeu. Mas, se tem uma coisa que eu aprendi é que você tem que insistir...
- Não. Foda-se.
- ... até não ter mais forças. Você não vai esquece-la, apenas aceite o destino. Se você não tentar, alguém vai e você vai ficar muito arrependido. Então você não vai desistir, porra! Logo você, o cara que me incentivou a correr atrás da Sabrina, não pode simplesmente desistir. Essa pode ser a mulher da sua vida, então você teria que ser muito burro para deixar de tentar. E é por isso que você vai correr atrás dela.
Esse foi um puta discurso. Foi tão bom que parece que foi redirecionado a si mesmo e deu forças para ele fazer o que faria amanhã.
Dia 20 de agosto de 2018. O que nosso herói fez? Nada! Até tentaria falar com Sabrina, mas o problema é que não a via. Ficou todo depressivo por passar mais um dia sem conseguir e foi para casa. Chegando lá, sente uma certa fome e decide fazer uma omelete. Uma coisa que deve ser dita anteriormente, é que independente de quanta pimenta do reino colocasse, não conseguia sentir a picância que deveria. Fazendo a omelete, coloca pimenta do reino e seus dedos ficam sujos. Logo vem seu pai, com uma má intenção.
- Lambe a pimenta aí para você ver que não arde quase nada.
Giovane confiava em seu pai então provou e por um segundo pensou " nossa, não arde mesmo ", mas estava muito enganado e arrependido, pois depois de dizer isso, pôde sentir sua língua queimando como carvão em brasas, então pensou " vou tomar um copo de leite e estará tudo resolvido ", acontece que no momento a caixa de leite que estava na geladeira, havia acabado e Giovane teve que esperar cerca de trinta segundos de pura dor e sofrimento até conseguir abrir outra caixa de leite.
Esse pequeno conto não interfere em nada nossa história, mas achei que deveria ser compartilhado.
Quinta-feira, 23 de agosto de 2018. Nosso herói já está na escola durante a terceira aula, esperando o sinal para o intervalo. Ao ouvi-lo, Giovane, como sempre, começa a andar em voltas, porém, mais uma vez se depara com Sabrina, mas dessa vez ela não está andando, e sim parada com algumas garotas, o que eliminava completamente a possibilidade de tentar fazer seu plano, então apenas segue seu caminho. Voltando para a sala, ele não sabia, mas sua vida que já era depressiva, estava prestes a ficar pelo menos três vezes pior, por um tempo. Ao entrar e sentar em sua cadeira, pôde ouvir Yasmin, sua prima, dizer claramente que era um cupido, logo em seguida Sabrina conversa com alguém que ele não conseguira identificar, mas ouve a seguinte frase durante a conversa " Eu virei e dei um beijo na mina ". Naquele momento, não sabia o que fazer. Seus olhos começaram a lacrimejar como se estivesse cortando um milhão de cebolas enquanto um anão tailandês chicoteava suas costas. Sentiu que todo o sentido de sua vida havia acabado, sentiu-se como se o chão que estava aos seus pés havia desabado. Para esconder sua tristeza de todos e de si mesmo, Giovane adotou um comportamento bem agressivo, mas enquanto conversava com Marcos ouviu-o dizer:
- Vamos fazer uma aposta amanhã. Tipo os gringos jogam pôquer e apostam salgadinho essas coisas, já a gente que é fudido aposta bala. A gente poderia, sei lá, jogar algum jogo de azar tipo pôquer, truco...
- Eu toparia um truco. – Disse nosso protagonista.
- Ok, então amanhã todo mundo traz bala para apostar e a gente joga um truco.
Chegando em casa, de noite, Giovane decide contar a seus amigos sobre o motivo de ter ficado tão furioso a partir do intervalo, exceto por uma parte que ele não conseguia parar de rir como se fosse um retardado " Bebidas Xabás ". E ao contar para Semeão, ele recebe um discurso motivacional quase tão bom quanto o que havia feito para Marcos.
- Giovane, sabe o que você precisa?
- O que?
- TVNC
- Wtf?
- Tomar vergonha na cara.
- Porra, semeon.
- Criar coragem e ir.
- Sim. Só preciso do meu bigode, ele me transmite segurança.
- Não deixe que coloquem o dedo na sua cara e digam quem você é!
- Minha autoestima começou a subir...
- Virou mó conversa motivacionap. Maldito correto. R.
- Maldito analfabetismo!
- Cara, você é o cara!
- É bizarro que eu nunca pensei que não conseguiria por falta de coragem, mas sim por rejeição.
- Você vai conseguir. Se tiver a lábia mais do que perfeita, você é imbatível!
- Sim, eu só preciso chegar nela.
- E puxar um bom papo.
- Com puxar um papo, você deve saber que eu vou chegar fazendo a proposta.
- Hum, é mesmo?
- Se a porra do Marcos tivesse seguido o plano...
- Então quando você chegar nela, já sabe...
- Agora tenho que ir.
- Vou recobrar o favor do Marcos, mas falous.
- O Kauã está mandando eu jogar com ele.
- Olha só, escravatura, mas falous.
Naquele mesmo dia, ele cobrou o favor e Marcos concordou em ajudar.
Dia 24 de agosto de 2018, na escola durante a primeira aula que deveria ser de artes, mais uma vez é uma aula vaga. Ao andar com Sem Mão e Raul, como sempre nosso herói se depara com Sabrina sentada com algumas amigas. Dando algumas voltas, durante uma delas, ao passar pelo grupo de garotas, nosso protagonista consegue ver claramente Sabrina olhar diretamente para ele por cerca de três segundos. E não era qualquer olhar, era um olhar tão certeiro que não havia a possibilidade de ela estar olhando para algum outro lugar. Esse fator somado às informações que Giovane havia conseguido ouvir ao longo do tempo, lhe dava uma chance de 99% de Sabrina estar afim dele.
Feliz para cacete, depois que a aula vaga acaba, volta para a sala e vai fazendo as lições até chegar a última aula de geografia. Todos haviam se lembrado do que Marcos havia combinado sobre o truco. Mas ninguém trouxe um baralho.
Depois de tudo isso, com sua confiança, nosso herói faz uma das coisas que mais se arrependeria em sua vida, ele decide aumentar a aposta que havia feito com Marcos para 20 reais. Se ele conseguisse, seria ótimo ganhar esse dinheiro, mas Giovane não pensou no caso de não ganhar a aposta, pois estava cego pela ganância do dinheiro fácil. Marcos aceita a proposta e dessa vez foi mais esperto por ter colocado um prazo de dois dias na aposta.
Durante alguns dias, nada de tão importante acontece que deva ser mencionado nesse livro. Isso até o dia 30 de agosto de 2018...
Giovane decide que pediria Sabrina em namoro durante o recreio, mas para isso precisaria da ajuda de Marcos, que concordou em ajudar depois de certas negociações.
É chegado o intervalo e a tensão estava subindo, até porque agora além de Sabrina, 20 reais estavam em jogo, e nosso herói não tinha nem perto disso...
Giovane anda durante o recreio procurando Marcos e acaba o encontrando.
- Então, cara... agora seria uma ótima hora para aquela ajuda...- Disse nosso protagonista.
- Ah, sim claro, claro... A gente só precisa encontrar a Sabrina...
E lá se vão Marcos, Giovane e Thiago (Não o Sem Mão) procurando a garota. Até que Marcos tem uma genial ideia (sem sarcasmo).
- Giovane, faz o seguinte: fica ali na árvore que eu vou ver se eu encontro ela e chamo-a aqui.
Nosso herói concordou com a cabeça e foi se dirigindo à árvore. Chegando lá, não parava de pensar o que iria dizer, até que de relance, consegue ver Marcos caminhando com Sabrina em sua direção. Eles haviam chegado.
- Então, o Giovane tem um negócio para te falar...
"É agora", pensava Giovane. Não havia mais escapatória.
- É então, é sobre o lance que eu ia falar ontem... Sabrina eu sou absurdamente afim de você, e você sabe disso, então... quer namorar comigo?
- Então... no momento eu não estou disponível..., mas se quiser a amizade, estamos aí.
Ele se sentia arrasado, detonado, zuado, fudido, quebrado.
Aquelas palavras ecoaram na cabeça de Giovane, que agradeceu a Sabrina por ter cedido seu tempo e foi embora andando. Por incrível que pareça, ele se sentia libertado. Triste, porém, libertado.
E nossa história termina aqui com um final não tão feliz(ou será que não?).
E com essa finalização, eu agradeço por ter tirado um tempo do seu dia para ler isso.
submitted by YareYareDaze007 to EscritoresBrasil [link] [comments]


2019.06.17 03:57 lucius1309 LUGAR AMALDIÇOADO

Antes de começar, dá um play nos discos que ouvi pra escrever esse texto.

ALICE IN CHAINS - SAP (1992)
https://www.youtube.com/watch?v=wQUlXOJqi5M
ALICE IN CHAINS - JAR OF FLIES (1994)
https://www.youtube.com/watch?v=6zurnifn-Y0

Gosto de forçar minha tristeza às vezes. Não sempre. Mas eventualmente gosto de saber que ainda sinto alguma coisa. No geral, é tudo apatia. Vontade de não levantar da cama e nem de ver ninguém nos olhos. Falar com pessoas é algo que acaba comigo, e várias vezes tive que ficar minutos (que pareciam dias) no telefone falando com pessoas que, honestamente, eu não dou a mínima.
Na real, eu não dou a mínima pra ninguém.
Ou quase ninguém, eu acho.
Não que eu não me importe com as pessoas, eu simplesmente não tenho interesse algum nelas, e por mim, viveria sempre no meu bom e velho casulo ouvindo discos, batendo textos e fazendo comidinhas gostosas. Sim, agora não existe a garrafa, não há muito a se fazer além disso.
"Então o que você me diz do seu trabalho atual, em que você ajuda pessoas a saírem do buraco que um dia você esteve?" o leitor pode questionar. E a resposta é simples. Eu faço tudo isso porque me faz bem, não porque faz bem pros outros. Fazer bem pros outros é mera consequência, mas se não fizesse, eu continuaria fazendo do mesmo jeito.
Certo.
Voltando uns doze anos atrás, eu estava começando a beber todos os dias, escutava Metallica, Megadeth, Anthrax, Iron Maiden e Slayer todos os dias, usava camisetas pretas e calças jeans desbotadas, havia raspado a minha cabeça com a maquininha 1, pesava sessenta quilos com um metro e oitenta de altura, odiava a faculdade e todos que estavam lá, meu namoro não ia bem e eu estava sendo traído (coisa que só vim a descobrir depois de um tempo), não acreditava em Deus e nem no Diabo, eu só queria me esconder e ler um pouco de Nietzsche. Acabei lendo dez livros dele, fora Schopp, Kierkgaard, Spinosa, Rimbaud, Heidegger, Camus, Baudelaire e outros imbecis, não sei onde eu li, só sei que li sobre o egoísmo do altruísmo, e sobre como pensar no próximo era sim o maior ato de pensar em si mesmo. Se fazer bem pra alguém te faz bem, você faz, mas se não faz, você deixa de fazer. É aquele velho ditado, todo mundo torce pelo sucesso do outro, desde que não interfira no sucesso de si mesmo. Logo eu, uma das pessoas mais covardes que conheci, lendo isso com meros dezessete anos, sem saber porra nenhuma da vida e achando que o problema estava todo no mundo lá fora, e nunca dentro de mim.
Afinal, não havia nada de errado em pensar em suicídio todos os dias, beber e ouvir música pesada. E depois disso tudo, as coisas só vieram a piorar.
Tenho certeza que moro num lugar amaldiçoado. Meus dois vizinhos usam drogas de forma violenta, desde que estão aqui eles usam, até hoje não conseguiram parar. Um deles eu sei que está jurado de morte pelo líder de algumas bocas de fumo da região, inclusive uma vez ele quase morreu por causa de uma dívida de trinta reais, mas eu fui na biqueira e paguei essa dívida. Claro que depois disso ele contraiu dívidas novas, e novas, e hoje devem estar em números exorbitantes.
Dentro da minha casa eu já usei muita droga, assim como meu pai e minha mãe, meu irmão começou a usar drogas aqui dentro também. Um ex namorado da minha mãe morreu de cirrose na sala de estar, ela chegou do trabalho e encontrou ele todo ensanguentado, pedaços do rim e do fígado espalhados pelo sofá, uma cena digna de um seriado policial. Eu mesmo já tentei me matar seis vezes aqui dentro, sendo dois enforcamentos, três tentativas de overdose (uma delas com medicamentos, duas com outras drogas) e uma vez com uma arma contra a minha cabeça. A casa já foi invadida duas vezes, furto, onde nada de mal aconteceu além da perda material. Já coloquei aqui dentro traficantes, putas, usuários de drogas, bicheiros, assassinos, trombadinhas, moradores de rua e toda classe de degenerados.
Hoje moro sozinho nessa casa, estou pensando em sair fora, pagar um aluguel em algum lugar e passar essa casa pra frente (venda ou locação), pra ver se consigo me sentir melhor. Os sábados geralmente são piores, mas todos os dias são complicados, o espiritual daqui é carregado, é como se alguma alma ainda andasse aqui dentro, quem sabe a alma do ex-namorado da minha mãe, que morreu aqui dentro. Minha mãe está numa depressão forte há quase dois anos, não consegue reagir de maneira nenhuma, envelheceu uns 20 anos desse tempo pra cá, chora o tempo todo e não quer sair do sofá. Assiste as novelas mexicanas e às vezes passa dias sem tomar banho. Come eventualmente e toma medicamentos fortes demais.
Eu tenho certeza que ela vai melhorar se sair daqui. Deve ter um sapo enterrado em algum lugar, que já estava enterrado desde antes de mudarmos pra cá. Fomos os primeiros donos, essa casa é nossa há quase 25 anos, e desde que meus pais vieram pra cá, comigo e meu irmão, tudo só piorou pra eles. Inevitavelmente veio o divórcio, e meu pai está bem melhor desde então.
Já morei em outros lugares, mas por pouco tempo, e nesse pouco tempo fora, a vida pareceu melhor de alguma forma. Eu consegui progredir, evoluir. Mas sempre acabo voltando pra cá, quer eu queira, quer não. Fiz uns trabalhos espirituais, incensos, defumações, descarregos, mas por enquanto, tudo segue do mesmo jeito. Satanás, em todas as suas formas, é muito forte aqui. São anos e anos se abastecendo de tristeza, vontade de morrer, abuso de álcool e drogas e desmoronamento familiar.
Talvez a vida seja melhor fora daqui.
Talvez o problema esteja em mim.
Não sei, não pretendo saber.
Tudo o que eu quero é uma paz de espírito completa. Uma utópica forma de ver a vida de maneira positiva. Afinal de contas, os especialistas com seus diplomas pomposos pendurados na parede dizem que tudo depende só de nós mesmos, e afirmo, pra estes, que se depende de mim mesmo, e somente de mim mesmo, eu venho fazendo um péssimo trabalho. Falta talento. Falta paciência. Falta principalmente vontade, porque como eu disse acima, minha vontade é de ficar no meu casulo sem ter contato com pessoas, pois pra mim a vida das pessoas é tão importante quanto a teia de aranha que destruí hoje enquanto limpava a cozinha.
Trabalho com a minha ansiedade da mesma forma que trabalho com o meu alcoolismo, um dia de cada vez. Faço exercícios de respiração, tento ocupar minha cabeça, canalizo pra alguma atividade um pouco produtiva, leio, vejo memes e torço pro dia acabar logo. Dentro de mim ainda respira um ser conturbado e problemático, que já ameaçou pessoas com faca e se jogou na frente de carros. Escutem, eu não sou santo, nem sou um escritor genial, sou só um cara fudido tentando ser feliz. Como a maioria é também. A diferença é que eu enfrento essa realidade (mesmo contra a minha vontade) e tento fazer alguma coisa, enquanto os outros, no geral, estão vivendo vidas patéticas demais e recheando as redes sociais com sorrisos mentirosos e olhos sem brilho.
O mundo continua girando, e continuará girando sempre, comigo aqui ou comigo em outro plano.
Isso não quer dizer que eu queira me matar.
É uma ideia que existe, mas ela aparece uma vez por semana e dura de cinco a dez minutos, então eu penso em todo o trabalho que seria e acabo desistindo, até porque eu tentei me matar muitas vezes e não morri, não vai ser agora que vai dar certo.
Ou vai?
Chega, esse texto está muito carregado. Não vou falar sobre atentar contra a minha própria vida, vou falar de uma coisa legal.
Hoje eu saí cedo pra dar uma volta, me ajuda a lidar com a minha ansiedade, e vi umas crianças de uns sete ou oito anos de idade tocando as campainhas e saindo correndo depois, dando risada numa inocência sem precedentes. Aquilo me tirou um sorriso dos lábios, e vi alguma esperança nas próximas gerações. Não necessariamente que eles vão dar certo, afinal, a minha geração falhou miseravelmente. Mas me fez ver as coisas com outros olhos pela primeira vez em semanas.
Depois disso, andando pelas ruas e vendo as pessoas tranquilas me senti em paz, uma paz estranha, serena, como se não houvesse nada de errado no mundo, como se minha vida tivesse sido perfeita até ali, como se eu tivesse tido o amor do meu pai e da minha mãe, como se eu nunca tivesse tentado me auto destruir pelo simples fato de me odiar demais e achar que eu não mereço ser feliz. E aquela paz durou algumas horas, eu cantei algumas músicas alegres e ganhei a minha semana.
Talvez ainda resida um Deus dentro de mim que me indica os caminhos certos e me faça acertar de vez em quando. Enquanto eu não faço contato direto com ele, vou tocando os dias da melhor forma.
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